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Soraya Ravenle vive o milagre supremo de evocar Dalva de Oliveira no delírio dramatúrgico do autor Renato Borghi

redacao by redacao
06/08/2026
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Soraya Ravenle vive o milagre supremo de evocar Dalva de Oliveira no delírio dramatúrgico do autor Renato Borghi
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Soraya Ravenle canta músicas do repertório de Dalva de Oliveira (1917 – 1972) no espetáculo ‘Minha estrela Dalva’, escrito por Renato Borghi
João Caldas / Divulgação
♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO
Título: Minha estrela Dalva
Dramaturgia: Renato Borghi
Direção: Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas
Elenco: Soraya Ravenle, Renato Borghi, Ivan Vellame e Elcio Nogueira Seixas
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Lâmina afiada que rasgou almas e corações com canto melodramático que ecoou pelo Brasil ao longo dos anos 1940 e 1950, através de registros de sambas-canção, boleros e tangos passionais, a voz límpida e angustiada de Vicentina Paula de Oliveira (5 de maio de 1917 – 30 de agosto de 1972) – cantora paulista imortalizada com o nome artístico de Dalva de Oliveira – já foi traduzida em cena, em 1987, pelo canto da atriz Marília Pêra (1943 – 2015), protagonista do espetáculo “A estrela Dalva”, escrito pelo ator e dramaturgo Renato Borghi. Nesse musical de teatral, uma jovem atriz debutante na ribalta, Soraya Ravenle, integrava o coro.
Corta para 2026! Quase quatro décadas depois daquela estreia tímida, já consagrada como uma das melhores atrizes de musicais de teatro, Soraya vive aos 63 anos o milagre supremo de convencer como Dalva de Oliveira no delírio dramatúrgico de “Minha estrela Dalva”, outro espetáculo escrito por Borghi sobre a intérprete da marcha-rancho “Bandeira branca” (Max Nunes e Laércio Alves, 1970), último sucesso de carreira que alcançou pico de popularidade na década de 1950.
No 32º musical da trajetória teatral, Soraya Ravenle – atriz projetada em 1999 como a estrela de espetáculo sobre a cantora e compositora Dolores Duran (1930 – 1959) – alcança um triunfo pessoal ao evocar o brilho de Dalva tanto no canto agudo e por vezes cortante como na postura altiva de uma artista que carregou cicatrizes no rosto (por conta de acidente de carro) e sobretudo na alma, mas sem jamais baixar a cabeça.
Após bem-sucedida temporada em São Paulo (SP), o musical “Minha estrela Dalva” chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde cumprirá temporada no Teatro Claro Mais até 27 de setembro, de quinta-feira a domingo.
Soraya Ravenle contracena com o ator e dramaturgo Renato Borghi no musical em que vive a cantora Dalva de Oliveira (1917 – 1972)
João Caldas / Divulgação
Sem seguir pelo caminho da mimetização, rota perigosa diante da força inigualável do canto de Dalva, Soraya acerta ao buscar o estado de espírito e do canto de uma artista exposta e tripudiada em praça pública quando, em decisão ousada para uma mulher dos anos 1940, decidiu romper a parceria na vida e na música que mantinha com o compositor Herivelto Martins (1912 – 1992), com quem Dalva integrou o Trio de Ouro em formação completada por Nilo Chagas (1917 – 1973).
Na música, Dalva alcançou êxito retumbante na carreira solo já em 1950, ano em que a estrela emplacou cinco sucessos sequenciais – “Ave Maria” (Jayme Redondo e Vicente Paiva), o samba “Olhos verdes” (Vicente Paiva) e os sambas-canção “Errei, sim” (Ataulfo Alves), “Que será?” (Marino Pinto e Mário Rossi) e “Tudo acabado” (Osvaldo Martins e J. Piedade) – cantados por Soraya Ravenle em cena, sob convencional direção musical de William Guedes, com naturalidade espantosa e paradoxalmente já esperada por quem viu a atriz se transformar em Isaura Garcia (1923 – 1993), outra estrela da era do rádio, em musical encenado em 2018.
Soraya brilha soberana na cena de “Minha estrela Dalva”, mas o brilho é coletivo e é justo ressaltar a habilidade de Ivan Vellame como cantor e intérprete dos dois amores mais importantes de Dalva, Herivelto Martins e Manuel Nuno Carpinteiro (1945 – 1994), apresentado no texto como “Bruno”.
Com Vellame na pele de Herivelto, Soraya divide medley com músicas do embate conjugal entre Dalva e Herivelto, vivido em ringue midiático. Com Vellame na pele de “Bruno”, a atriz protagoniza sedutor número musical com tangos do repertório de Dalva.
Soraya Ravenle é Dalva de Oliveira (1917 – 1972) no musical em que Ivan Vellame se destaca como Herivelto Martins (1912 – 1992)
João Caldas / Divulgação
E, além de Dalva na pele de Soraya, paira na cena, como entidade do teatro brasileiro, o próprio autor, Renato Borghi, vivido pelo próprio Borghi no tempo presente, e na juventude por Elcio Nogueira Seixas, codiretor do espetáculo orquestrado sob direção de Elias Andreato com recursos de metalinguagem.
Como o título “Minha estrela Dalva” já sinaliza, o musical expõe a visão de Dalva pela percepção pessoal e delirante de Borghi, ardoroso seguidor dos passos da estrela desde os tempos áureos da cantora no auditório da Rádio Nacional.
No arrebatamento de Borghi, Dalva é a mais completa tradução do universo musical do compositor alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956), povoado por desvalidos postos à margem da sociedade, como a protagonista da canção “Jenny dos piratas” (Bertolt Brecht e Kurt Weill, 1928), cantada por Soraya quando o delírio da imaginação de Borghi se materializa em cena.
Não fosse pela voz luminosa que ia do contrato ao soprano com alcance excepcional, Dalva de Oliveira teria sido posta à margem pela sociedade moralista da época da cantora. No musical, visitada no camarim por Borghi, a estrela já vive fase crepuscular, com o brilho empanado pelo conhaque cotidiano e por um mercado etarista que já a via como uma cantora ultrapassada.
Contudo, no vaivém ilusório da cena, a estrela reluz nos tempos áureos de músicas como “Ave Maria no morro” (Herivelto Martins, 1942) – um dos números mais arrebatadores do roteiro musical – e transcende no arremate do espetáculo com o canto de “Hino ao amor” (Edith Piaf e Marguerite Monnot, 1950, em versão em português de Odair Mazano, 1959). Ali, naquele fecho emocionante, Soraya Ravenle já viveu o milagre supremo de transcender ela própria em cena como intérprete tradutora do corpo, da alma e do canto de Vicentina Paula de Oliveira.
Soraya Ravenle acerta ao se desviar do caminho da mimetização ao interpretar Dalva de Oliveira (1917 – 1972) no musical ‘Minha estrela Dalva’
João Caldas / Divulgaçãon
Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/08/06/soraya-ravenle-vive-o-milagre-supremo-de-evocar-dalva-de-oliveira-no-delirio-dramaturgico-do-ator-renato-borghi.ghtml

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